A Alma Imoral

Sala Fernanda Montenegro

A peça desconstrói e reconstrói conceitos milenares da história da civilização – corpo e alma, certo e errado, traidor e traído, obediência e desobediência.

Sozinha no palco, Clarice Niskier está em contato direto com a platéia, sem fazer uso da chamada “quarta parede”. Para contar histórias e parábolas da tradição judaica, a atriz vale-se somente de uma cadeira panton preta e um grande pano preto que, concebido pela figurinista Kika Lopes, transforma-se em oito diferentes vestes, mantos, vestidos, burcas, véus. O espaço cênico concebido por Luis Martins é limpo e remete a um longo corredor em perspectiva.

 Clarice optou por não trabalhar com uma direção teatral no sentido tradicional, mas com a supervisão de Amir Haddad, que já vem fazendo este trabalho com alguns atores. Supervisão pode significar uma visão maior ou superior, capaz de desvendar coisas que outros olhos mortais não conseguiriam ver. Assim como o super-homem (citado no espetáculo) com sua visão de raio x. Mas também pode significar uma sobre-visão, uma visão de cima, das coisas que estão acontecendo. Por exemplo: “A terra é azul” disse Gagarin, sobrevoando o planeta. O que eu faço com a Clarice, bela atriz, mulher corajosa, procurando o seu lugar, é tentar dar a ela a visão de quem está de fora, e às vezes de cima, para melhor poder entendê-la e orientá-la na manutenção de sua órbita. Me dá mais prazer observar e ajudar um ator no divino exercício do seu ofício do que inventar efeitos de som e luz e algumas marcações e depois anunciar: “o diretor”. Sonho com um ator dono do seu próprio texto e dessa maneira, capaz de iluminar o texto de outrem pelo embate de suas idéias, propõe Amir.

 COMO TUDO COMEÇOU

 Clarice inicia contando ao público a origem da peça, que nasceu do seu primeiro encontro com o rabino Nilton Bonder, em 2002, num programa de televisão:
(…) No final da minha entrevista, então, a apresentadora me perguntou se eu tinha uma religião. Disse que era de descendência judaica, mas que o teatro tinha me aproximado do Budismo, então que eu era uma judia-budista. Veio o intervalo… Quando o programa voltou ao ar a apresentadora disse que tinha chegado um fax meio-assim-pra-mim, mas que ela ia ler porque queria ouvir minha resposta. O fax dizia: – Minha filha, não existe judia budista. Ou você é bem judia ou você é bem budista. Assinado, Dona Léa… não lembro o sobrenome… Mas lembro que na hora não me pareceu budista….

 A apresentadora do programa perguntou a Bonder o que achava do fax da telespectadora, e ele então trouxe nova luz à questão levantada por Clarice. Acolhendo o ponto de vista da atriz, o rabino afirmou que o Budismo poderia  inclusive ajudá-la a compreender melhor o Judaísmo. E ao final do programa a presenteou com um exemplar do livro que lançava na ocasião, “A Alma Imoral”. Clarice logo leu o livro e nele encontrou traduzidos em palavras muitos de seus sentimentos, que até então não sabia como expressá-los. Imediatamente começou a trabalhar na adaptação para teatro, fazendo leituras regulares para amigos, atores e público ao longo de dois anos, num processo acompanhado por Nilton Bonder, de quem sempre recebeu todo apoio e confiança.


Autor: Nilton Bonder

Adaptação, concepção cênica e interpretação: Clarice Niskier

Supervisão: Amir Haddad

Cenário: Luis Martins

Figurino: Kika Lopes

Iluminação: Aurélio de Simoni

Música original: José Maria Braga

Direção de movimento: Marcia Feijó

Preparação corporal: Mary Kunha

Preparação vocal: Rose Golçalves

Visagismo: Martin Macias Trujillo

Cabeleireira: Nina Monteiro e Maria felipe

Fotografias: Dalton Valério

Programação visual: Studio C

Divulgação: João Pontes e Stella Stephany

Diretor de palco: Fernando Ostrovsky

Operador de luz: Hélio Malvino

Produção executiva/operadora de som: Andreia Alencar

Diretor de produção: José Maria Braga

Realização: Niska Produções Artísticas



7 comentários
  • Vi essa peça no Rio e em São Paulo: É ESPETACULAR!!! Já comprei meu ingresso. O Rio merecia ter a ALMA novamente em cartaz! Parabéns aos administradores do Teatro! Eu indico!!

  • Nathalia Colombo disse 11 de setembro de 2011 às 20:03

    Grande trabalho. Fui por indicação de uma amiga da companhia de teatro, esperava uma coisa e vi algo completamente diferente. Quero até comprar o livro e, olha que este gênero não me atrai muito, mas as reflexões foram de uma ponderação tão refinada e lucidez surpreendentes que me senti naqueles momentos em que a vida faz algum sentido ou naqueles em que constatamos que não somos os únicos loucos. E quanta sanidade há nesta loucura…
    Parabéns a Clarice, Newton Bonder e toda a equipe.

  • Assisti à peça “A Alma Imoral” em Brasília, há quase um ano. A minha vontade de perpetuar a emoção era tão grande que comprei o livro logo na saída e imergi nele imediatamente. O livro é excelente, mas uma pedreira para uma pobre mortal como eu. Ao terminá-lo, me dei conta de que eu havia assistido no palco a um milagre. Sim, Clarice faz um milagre no palco. Já transmiti essa experiência a muitos amigos e agora tenho a chance de convidá-los a vivenciá-la. Não percam!

  • Olá!
    Está prevista a apresentação dessa peça em Belo Horizonte, em 2011?
    Obrigada!

  • Um momento de reencontro com os verdadeiros valores do seu Eu e suas verdades… a singularidade olhada pela nudez da alma sem pecados. Clarice vira um espírito e habita a existência de cada um na platéia.

  • ronaldo borges de abreu disse 19 de novembro de 2011 às 14:31

    Assisti a peça aqui no rio, acho que gavea. Sou do interior – bom jesus do itabapoana – fronteira com ES. Hoje, 19/11/2011, sábado, vim vê-la novamente e levo uma tia. É tudo de bom. Foi indicada pela minha psicóloga e muito me marcou. Hoje quero ver/ter novamente essa experiência. Quanta emoção e desconstrução de valores (?). Parabéns.
    ronaldo (ronan).

  • Muito boa a peça, adoro teatro e quando vou de férias no Rio sempre tento ir. Assisti à peça no dia 17 de Novembro no teatro do Leblon, adorei. De uma forma ou de outra, toda a gente se identifica com a peça..

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