Simplesmente eu, Clarice Lispector

Sala Fernanda Montenegro

 

 

 

Joana, uma mulher inquieta e criativa foi a primeira personagem de Clarice Lispector que Beth Goulart conheceu. No auge da adolescência, ao ler “Perto do Coração Selvagem”, romance de estreia da autora, sua identificação foi inevitável. “Eu achava que não era compreendida. O que fazer com isso tudo dentro de mim, com esse processo criativo?Só Clarice me entendia.”, confessa Beth. Depois de Joana, que representa o impulso criativo selvagem, vieram outras mulheres na escrita de Clarice. Entre elas, está Ana, do conto “Amor”, que leva uma vida simples, dedicada ao marido e aos filhos e tem a rotina quebrada ao se impressionar com a magia do Jardim Botânico. Ela representa a fase em que Clarice se dedicou totalmente ao marido e aos filhos.

Lóri, da obra “Uma aprendizagem ouO livro dos prazeres” é uma professora primária que mora sozinha e se prepara para descobrir o amor. Toda a obra de Clarice é uma ode ao amor. Há ainda outra mulher sem nome, que, no conto “Perdoando Deus”, se deixa mergulhar na liberdade enquanto passeia por Copacabana, representando a ironia, a inteligência e o humor na obra de Clarice. Essas quatro mulheres, que, para Beth, “representam algumas facetas da própria Clarice”, foram escolhidas para apresentar ao público a obra de um dos maiores nomes da literatura brasileira. Em “Simplesmente eu, Clarice Lispector”, espetáculo que teve estreia nacional em julho de 2009 em Brasília, no Centro Cultural Banco do Brasil, a atriz interpreta, além da escritora e suas personagens, fragmentos que reconhece em si mesma: “Usando as palavras dela, eu também estou falando de mim, eu me revelo através de minhas escolhas”. Na peça, Beth faz reflexões sobre temas como criação, vida e morte, Deus, cotidiano, solidão, arte, loucura, aceitação e entendimento e trabalha pontos característicos da obra de Lispector, como o vazio, o silêncio e o instante-já, “aquele momento único, que é como um flash, um insight”, explica a atriz. Para o monólogo, que ela também dirige, passou dois anos mergulhada em longa pesquisa. A narrativa se constrói a partir de trechos de entrevistas, depoimentos e correspondências. Segundo Beth, toda essa ligação se dá por uma única linha: o amor. “Ela falava sobre o amor maternal, o do relacionamento, o amor a Deus, à natureza, ao próximo. Escolhi esse viés para apresentá-la ao público.” Para a atriz, representar Clarice Lispector é realizar um antigo desejo. “Eu sempre acalentei essa vontade de um dia poder dar meu corpo, minha voz, minhas emoções para colocá-la viva em cena.”

A caracterização foi feita de forma cuidadosa. Detalhes como a maquiagem ganharam tratamento especial de Beth Goulart, que optou por um caminho neutro para passear livremente pela pele das personagens e da autora. “O espetáculo todo é como se fosse uma grande folha em branco a ser escrita por esses personagens, pelos movimentos, pelas ações, pelos sentimentos, pela luz.”

*O ESPETÁCULO

O espetáculo mostra a trajetória desta mulher em direção ao entendimento do amor, de seu universo, suas dúvidas e contradições. Uma autora e seus personagens dialogando sobre a vida e morte, criação, Deus, cotidiano, palavra, silêncio, solidão, entrega, inspiração, aceitação e entendimento. O texto é extraído de depoimentos, entrevistas, correspondências de Clarice e trechos das obras: “Perto do Coração Selvagem”, “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” e os contos “Amor” e “Perdoando Deus”.

*ENCONTRO DE BETH GOULART COM CLARICE LISPECTOR

O que me levou a fazer Clarice Lispector no teatro foi o mistério do espelho, a identificação que sinto por ela. Além da vontade de trazer mais luz sobre esta mulher que revolucionou a literatura brasileira, redimensionou a linguagem falando do indizível com a delicadeza da música, usando a escrita como uma revelação, buscando o som do silêncio ou fotografar o perfume. “A arte é o vazio que a gente entendeu” diz Clarice. Quero atingir o vazio de mim mesma para refletir a profundidade desta mulher que conhece o segredo das palavras e suas dimensões. O questionamento, é a busca constante do artista diante de sua escolha, e, como ela, eu gosto de intensidades. Há dois anos mergulhei num processo de pesquisa para escrever este roteiro lendo tudo o que podia de sua obra e livros biográficos. Fiz dois workshops com Daisy Justus uma psicanalista especializada em Clarice Lispector que analisa sua obra sob a ótica da psicanálise. Vi e ouvi tudo o que podia sobre ela, suas entrevistas, fotos, o depoimento no MIS, a entrevista póstuma na TV Cultura, enfim me tornei uma esponja de tudo o que se referia a ela. Neste olhar apaixonado escolhi sua obra para recontá-la. Construí um corpo narrativo com trechos de entrevistas, depoimentos e correspondências que preparam os personagens que irão se apresentar ao público como desdobramentos dela mesma. Os temas abordados são reflexões sobre criação, vida e morte, Deus, cotidiano, palavra, silêncio, solidão, arte, loucura, amor, inspiração, aceitação e entendimento. Clarice é muito pessoal em seus escritos e todos os seus personagens tem algo de si mesma. Acho que Joana de “Perto do coração selvagem” talvez seja a mais parecida com sua essência criativa e indomável. Ana do conto “Amor” é a dona de casa e mãe dedicada que Clarice certamente foi. Lori de “Uma Aprendizagem ou O livro dos prazeres” vive em cena as descobertas do amor e A Mulher do conto “Perdoando Deus” é uma bem humorada autocrítica.

 


 Texto: Clarice Lispector

Adaptação, Interpretação e Direção: Beth Goulart

Supervisão: Amir Haddad

Gênero: Espetáculo Poema

Direção de Produção: Pierina Morais

Classificação: 12 anos

Duração: 60 minutos

Atriz: Elizabeth Miessa

Diretora de Produção:Pierina Morais

Diretor de Cena: André Boneco / Guará

Operador de som e vídeo: Paulo Mendes

Operadora de luz / iluminação: Diana Cruz

Camareira: Eliane Silva

Produção Executiva: Manoela Bendia Reis Carvalho

Assistente de Palco / Motorista: José Severino Junior



1 comentários
  • Paulo Artur Costa disse 21 de julho de 2013 às 0:51

    A peça é tão fascinante que não consegui encostar as costas na cadeira, meu olho e corpo estavam juntos de Clarice-Beth, o tempo todo. O monólogo é milimétrico. Som, luz , gestual, imagem( a do Jardim Botânico é de matar), maquiagem, roupa, TUDO.
    Que prazer constatar o amadurecimento cênico de uma grande atriz!!!! Beth sempre foi boa, mas nesta peça ela extrapola
    Ao final, carinhosa e gentilmente conversa com cada um de nós que a assistimos, recomenda o olhar de Clarice que ela tão bem representou, o amor, permeando tudo, a solidariedade, a alteridade, etc.

    Beth não deve ter tempo de ler isto, vou contar um caso rápido, abaixo, mas…escrevo como se ela fosse ler, uma homenagem pessoal.

    O Caso, real

    Jornalista entrevistava Marlon Brando, na época em que ele fazia o Poderoso Chefão. Fez as perguntas que queria, ouviu as respostas, etc. Brando foi para o seu camarim e retornou para iniciar filmagens. O jornalista ainda estava por lá. Fez uma derradeira pergunta. Quando ouviu a resposta, conta este jornalista, ficou extasiado, não estava falando com a mesma pessoa, era o personagem que falava, em tudo. Não vou detalhar, imagine, no caso, é fácil, o personagem é forte..

    Em suma, quando Beth falou com o público, senti o mesmo que aquele jornalista. Clarice ainda estava no ar, a peça é intensa, mas naquele momento era a Beth que falava. UMA MARAVILHA A ARTE CÊNICA.

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